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domingo, 5 de dezembro de 2010

Fascinante: HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA [Do Império Romano ao Ano 1000]



História da vida privada, do Império Romano ao ano mil, Georges Duby, Phillipe Ariès e outros, Companhia das Letras, São Paulo, 1990

Vida particular, vida pública: não há quem julgue desconhecer o que isso significa numa sociedade. No entanto, a questão é mais complicada do que parece, como provam os cinco volumes, que começam a ser editados no Brasil, do trabalho dos historiadores franceses Georges Duby e Phillippe Ariès. Em Roma e na Idade Média, vida privada e pública não se separavam com nitidez. Duby e seus colegas relatam que na antiga Roma não existia idéia de poder como algo impessoal. O chefe de governo realmente administrava as coisas públicas como se fossem negócios seus. Os cargos públicos eram criados e negociados no clube dos notáveis – os aristocratas. Estes os exploravam para seu enriquecimento e prestígio. As famílias ricas que dominavam os negócios públicos tampouco tinham vida particular. Esta se confundia com a vida pública. Tudo que os ricos faziam importava à cidade e vice-versa. Quando um notável morria, por exemplo, a família era obrigada a dar um banquete à plebe. Se não o fizesse, o enterro não se realizaria.

Os nobres arrancavam o couro dos contribuintes e devolviam uma parte das festas, edifícios públicos, segurança para o corpo e para a alma. Pode-se dizer que, em Roma, res publica (coisa pública, em latim) era sinônimo de cosa nostra (nome italiano de um dos ramos da Máfia atual). Prova disso é um trecho da obra de Duby que se referem à vida cotidiana dos romanos: “Um dos poderosos não hesitava em se apoderar da terra de seus vizinho (...) O que fazer contra esse homem que enriqueceu à custa dos outros? As probabilidades de obter justiça dependiam da boa vontade de um governador de província muito ocupado, obrigado a poupar os poderosos por razoes de Estado e aliado a eles por uma rede de amizades e interesses”.
Os autores fazem comparações entre a Roma antiga e os países do Terceiro Mundo de hoje. O nobre romano, escrevem, “tem o colorido de um notável sul-americano, mas como ele, nessa sociedade que opõe brutalmente ricos e pobres, tem porte nobre e não se parece com suas vias de enriquecimento”. O nobre romano, com efeito, não era reconhecido pelas roupas, mas pelas maneiras: belas, altivas e viris. O corpo bem treinado era seu cartão de visitas. A partir do século III, porém, quando a Igreja começa a exercer legalmente seu domínio sobre a sociedade , o corpo humano recebe, por assim dizer, um véu, passando a “refletir o nível social de seu proprietário sob a forma de pesadas vestes”. O cristianismo, em suma, transforma o corpo num suporte sem graça. A vida pública,cuja expressão social mais importante é o clero, caracteriza-se pela abstinência sexual, pela disciplina das ordens religiosas e pelo celibato.

Devassavam-se as riquezas das pessoas, o modo pelo qual exerciam o poder político e a própria sexualidade. A ruptura entre o paganismo e o cristianismo, sob esse ponto de vista, consiste na passagem do belo ao feio. Já não se tratava de estar e bem com a vida, mas de aguardar a vida verdadeira – aquela após a morte. Com esse relato inaugural, História da vida privada desmancha velhas noções que herdamos sobre nós mesmos, como a idéia da perenidade da autonomia individual, o direito que cada qual tem de decidir a própria vida. Os autores mostram que isso não existiu nem na Antiguidade pagã, nem no cristianismo. O indivíduo livre, prestando contas ao público só em momentos determinados e dentro de regras válidas para todos, é criação recente – mesmo assim, na maioria das sociedades, ainda é uma quimera.

Roberto Romano é professor de Filosofia Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)





sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Baita Filé pra Vocês! Élio Gaspari, aqui no Blog


A Ditadura Envergonhada - Elio Gaspari




Um jornalista experiente, participante e testemunha privilegiada de um dos períodos mais dramáticos da história brasileira. Dois militares com visões estratégicas e políticas diferentes, mas muito, muito poder nas mãos. O jornalista Elio Gaspari, profundo conhecedor do cenário cambiante (ou nem tanto) da política brasileira, apresentou-nos recentemente As Ilusões Armadas, com seus dois volumes - primeiro grupo dos cinco livros que lançará sobre o período político compreendido entre 1964 e 1979. Os dois personagens, centrífuga ou centripetamente atuando sobre os demais agentes e fatos, são Golbery do Couto e Silva eErnesto Geisel, ou antes, como quer o autor, "o sacerdote e o feiticeiro". A ditadura envergonhada, primeiro volume, narra o processo quase bizarro de gestação e aplicação do golpe de 1º de abril, mais tarde batizado oficialmente pelostatus quo então vigente como Revolução de 31 de março de 1964. O livro percorre o trajeto desde o aniquilamento das forças político-sociais que sustentavam o presidente João Goulart até o endurecimento do regime militar, com o surgimento e aplicação do Ato Institucional nº 5. O segundo volume, A ditadura escancarada, inicia-se logo com uma análise filosófica e humanista do alcance da tortura sobre seu agente e vítima. O texto é comovente e denso, um verdadeiro tratado em poucas páginas. E segue com o histórico da escalada de violência e mortes que caracterizaram o período. A leitura é obrigatória para o cidadão consciente, pois, sem viés partidário ou ideológico, o autor insere-nos num mundo que, conhecido em suas causas, esperamos nunca se reinstaure. Pela importância de nelas nos reconhecermos, como povo, essas obras gêmeas são nosso destaque do mês.Baixar Aqui

Elio Gaspari continua no Blog! 2° Volume: A Ditadura Escancarada!

A DITADURA ESCANCARADA



Um jornalista experiente, participante e testemunha privilegiada de um dos períodos mais dramáticos da história brasileira. Dois militares com visões estratégicas e políticas diferentes, mas muito, muito poder nas mãos. O jornalista Elio Gaspari, profundo conhecedor do cenário cambiante (ou nem tanto) da política brasileira, apresentou-nos recentemente As Ilusões Armadas, com seus dois volumes - primeiro grupo dos cinco livros que lançará sobre o período político compreendido entre 1964 e 1979. Os dois personagens, centrífuga ou centripetamente atuando sobre os demais agentes e fatos, são Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, ou antes, como quer o autor, "o sacerdote e o feiticeiro". A ditadura envergonhada, primeiro volume, narra o processo quase bizarro de gestação e aplicação do golpe de 1º de abril, mais tarde batizado oficialmente pelo status quo então vigente como Revolução de 31 de março de 1964. O livro percorre o trajeto desde o aniquilamento das forças político-sociais que sustentavam o presidente João Goulart até o endurecimento do regime militar, com o surgimento e aplicação do Ato Institucional nº 5. O segundo volume, A ditadura escancarada, inicia-se logo com uma análise filosófica e humanista do alcance da tortura sobre seu agente e vítima. O texto é comovente e denso, um verdadeiro tratado em poucas páginas. E segue com o histórico da escalada de violência e mortes que caracterizaram o período. A leitura é obrigatória para o cidadão consciente, pois, sem viés partidário ou ideológico, o autor insere-nos num mundo que, conhecido em suas causas, esperamos nunca se reinstaure. Pela importância de nelas nos reconhecermos, como povo, essas obras gêmeas são nosso destaque do mês.


Elio Gaspari continua no Blog! 3° Volume: A Ditadura Derrotada!

A Ditadura Derrotada


Geisel ( o Sacerdote) e Golbery ( o Feiticeiro) formaram uma parceria sem precedentes na história do Brasil. Era uma amizade a serviço. Começava e terminava no Planalto. Geisel era o presidente da República e Golbery, seu chefe do Gabinete Civil. Não se frequentavam, não almoçavam juntos. Contam-se nos dedos as ocasiões em que Golbery foi ao palácio da Alvorada e aquelas em que Geisel o visitou na granja do Ipê, onde morava. Os dois generais aproximaram-se durante o primeiro governo da ditadura, quando Geisel, com 56 anos, chefiou o Gabinete Militar do presidente Castello Branco e Golbery, com 52, fundou e dirigiu o Serviço Nacional de Informações. Voltaram ao poder no dia 15 de março de 1974. Tinham o propósito de desmontar a ditadura radicalizada desde 1968, com a edição do Ato Institucional N° 5. Queriam restabelecer a racionalidade e a ordem. Geisel recebeu uma ditadura triunfalista, feroz contra os adversários e benevolente com os amigos. Decidiu administrá-la de maneira que ela se acabasse. Não fez isso porque desejava substituí-la por uma democracia. Assim como não acreditava na existência de uma divindade na direção dos destinos do universo, não dava valor ao sufrágio universal como forma de escolha de governantes. Queria mudar porque tinha a convicção de que faltavam ao regime brasileiro estrutura e força para se perpetuar. Em dois outros livros (A ditadura envergonhada e A ditadura escancarada) procurei contar a história do consulado militar desde a deposição do presidente João Goulart, em 1964, até a caçada dos guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil, nas matas do Araguaia, em 74. Neste, vão narradas as vidas de Geisel e Golbery, a articulação que os levou ao Planalto, a formação do governo e seu caminho até a eleição de 1.974, na qual a ampla e inesperada vitória da oposição alterou o curso da ditadura. Esta obra trata-se do terceiro livro da coleção e primeiro volume da série O Sacerdote e o Feiticeiro ( que dá sequencia aos livros de "As Ilusões Armadas")


Elio Gaspari continua no Blog! 4° Volume: A Ditadura Encurralada!

A Ditadura Encurralada



Gaspari se tornou depositário de cinco mil documentos do Arquivo Golbery e do diário de Heitor Ferreira, secretário particular de Geisel, "o sacerdote", e de Golbery, "o feiticeiro" para escrever "A ditadura derrotada" - primeiro volume do tríplice "O sacerdote e o feiticeiro" - obra espetacular, já que trata de conversas e de assuntos cujo conteúdo nem mesmo os envolvidos sabiam. Num dos trechos mais importantes de "A ditadura derrotada" fica-se sabendo que Geisel, antes de ser empossado em fevereiro de 1974, ouviu do general Dale Coutinho que o "negócio" - a repressão à subversão - "melhorou quando começamos a matar", numa referência ao fim dos "confrontos armados" e dos "suicídios" suspeitos e ao surgimento da figura do "desaparecido". "Ó Coutinho", disse o futuro presidente, "esse troço de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser." Disse isso com a mesma simplicidade com que repeliu o golpe dentro do golpe, ao vê-lo se desenhando após a vitória da oposição nas eleições de 1974. "Pois não fizemos uma eleição? É isso e pronto!" O resto das revelações fica para esta grande obra intitulada A ditadura encurralada, novo volume de "O sacerdote e o feiticeiro", cobrindo até a demissão do general Sylvio Frota, em 1977, pá de cal no autoritarismo.