quarta-feira, 7 de março de 2012

Parte 4: A Sós Com Deus e a Natureza!


Nhandu, a Ema, o Avestruz dos Pampas Gaúchos.


A convivência nas duas etapas de companhia com as minhas irmãs e meus sobrinhos foi muito benéfica, por dois motivos: relaxei e fiquei muito à vontade, fator importante para se inteirar de todos os aspectos do ambiente com o qual me relacionaria em breve de maneira radical, e a higiene mental, item igualmente básico. Quando tiramos férias, os primeiros dias são decisivos para o bom aproveitamento das mesmas, pois nossa mente ainda não está inteirada da realidade, ou seja, ainda está no ritmo mental do trabalho. Leva-se pelo menos uns dez a doze dias para o cérebro conseguir absorver plenamente a ideia de que está num período de descanso e descompromisso com as regras estabelecidas pelo trabalho cotidiano. Portanto, uma “limpeza”, um suave ritmo de passagem das horas e dos primeiros dias é fundamental. Tenho minhas dúvidas se suportaria passar sozinho os mais de vinte dias aqui nesse lugar sem a companhia dos primeiros dias. Minha mente foi higienizada de maneira perfeita pela interação com outras pessoas. O choque de ambiente seria fatalmente insuportável, creio, se tivesse saído diretamente do frenesi paulistano para esse local calmo e desolado, isolando-me sem um estado intermediário de interação com outras pessoas.
Foto da Fazenda, a 5 km de distância, chegando de Candiota à tardinha!
A chegada à fazenda no dia 12 de fevereiro deu-se de forma normal e tranquila. Havia uma possibilidade de uma viagem para o Rio de Janeiro ou Mato Grosso do Sul na quarta-feira próxima, mas era uma possibilidade condicional. Até terça à noite eu deveria confirmar com Andrea se iria ou não fazer tal proeza. Tudo dependeria de como me sentiria sozinho na imensidão dos pampas gaúchos. Desci ao riacho para o banho costumeiro, com a diferença de não ter ninguém para conversar. Após lavar as roupas e higienizar meu corpo, deitei-me tranquilamente nas águas frescas do riacho, e aquele primeiro momento foi mágico. Senti na alma cada trinado de pássaro, cada coachar de rãs, e senti a leve brisa a eriçar meus cabelos. Não há outra palavra para descrever aqueles momentos, a não ser essa: “mágico”!


Pôr-de-sol magnífico capturado com a Kodak Z990
Ao entrar na barraca para pernoitar, uma surpresa não muito boa: meu colchão de ar estava furado. Não aguentava mais do que duas horas, e as costas já começavam a sentir o chão duro. Enchi bem o colchão e dormi, sabendo que meu sono é pesado, e contando com a possibilidade de não acordar incomodado com o colchão parcialmente vazio. E assim foi. Às 6h30 fui acordado pela suave claridade do princípio do alvorecer. Um pouco de dor nas costas devido às longas horas sobre o solo inclemente, mas não dava pra reclamar. Até foi bom, porque assim o desconforto não permitiu que eu permanecesse mais tempo curtindo a preguiça no leito. Levantar-me cedo era uma necessidade, porque até então, desde o dia 28 de janeiro eu não havia fotografado o alvorecer, uma das minhas composições favoritas para fotografia nessa região. No final das contas saí no lucro. Agora poderia ter todo o tempo do mundo para me dedicar à vontade ao afã de fotografar.
Na quinta-feira, dia 16, tomei uma decisão importante. Já havia lido todas as revistas que comprara em Bagé, e nada mais havia para ler. Até mesmo as revistinhas de caça-palavras da “Coquetel” já haviam se esgotado. Então, fui até Torrinhas, comprei tomates e cebolas, que haviam terminado, mas não encontrei as tais revistas. Decidi ir até à Vila Operária, em Candiota, onde encontrei o que precisava. Cheguei em casa já bem tarde, mais de 19h00. Desci ao riacho, esvaziei bem meu colchão, levei a bomba, uma borracha que consegui na fazenda vizinha, e mãos à obra. Interessante, o furo estava bem ao lado de um conserto que fizera há uns dois anos, em Paraty, no Rio de Janeiro. Achei que o Tree-bond (similar do super bonder) não fosse dar conta do recado, mas se saiu muito bem. Dormi em paz e confortável aquela noite.
Lua ao entardecer, despontando por detrás das nuvens
A sexta-feira foi um dia especial. Na parte da manhã levei as panelas da Deia (que eu havia tomado sem ela saber) até à sanga, para dar um trato especial. Gastei quase duas horas para deixa-las brilhando, enfim deu tudo certo. Tomei um banho gostoso e ao voltar à sede, deu para bater algumas fotos interessantes, centradas na minha pessoa, não na paisagem. A aparência daquele dia indicava movimento sério no tempo, e não deu outra. Depois das 16h00min, o tempo fechou misteriosamente. Nuvens negras envolveram os céus, predominando o negrume para o lado sul e oeste (é o lado perigoso de chuvas). Isso rendeu fotos interessantes. Fiz a minha preparação, cozinhei macarrão e arroz, e deixei no jeito um tabule para preparar no sábado, dia seguinte. Desci à sanga, tomei um bom banho e retornei em tempo de receber o sábado. Achei que cairia um pé d’água fenomenal, mas foram uns poucos pingos. A noite continuou fuzilando, pensei que o aguaceiro chegaria na madrugada, mas nada aconteceu. Dormi em paz e tranquilo.
O sábado foi um dia sem muitas novidades, até dormi tranquilamente na parte da tarde, embora estivesse muito quente o tempo. À tardinha tomei o tradicional banho de sanga, fiquei mais de duas horas lá, de molho, pensando na vida, envolvido em meus pensamentos profundos, algo fantástico.
O dia da partida
Local onde tomei meu último banho, foto tirada no momento de partir.
O domingo, definitivamente, seria o dia da partida, dia 19 de fevereiro. O dia começou agitado, arrumando caixas, ajeitando louças, panelas, ferramentas, arrastando móveis e coisas afins. Foi o dia mais quente e abafado de todos os 21 dias que passei ali naquele abençoado lugar. Acho que a temperatura deve ter encostado nos 40°. Desmontei a barraca com o coração partido, sabendo que teria de deixar dentro de alguns momentos o meu retiro tão agradável... lá pelas 16h00min desci à sanga para tomar meu último banho. Aquele banho foi diferente, porque recapitulei minha vida, desde a década de 80, que foi um período especial, o período da infância, no qual vinha várias vezes ao ano para a fazenda, junto com meus pais, e algumas vezes junto com meus sobrinhos. Era um período que deixou saudades e lembranças que jamais serão esquecidas. Outra fase que marcou muito foi a década de 90, um período conturbado para mim, no seu início, porque tive de enfrentar muitas dificuldades para aceitar o evangelho. No ano de 1993 passei muitas horas nessas matas lendo o livro “O Desejado de Todas as Nações”, uma biografia de Cristo baseada nos Evangelhos, pela primeira vez. É o meu livro preferido sobre Jesus. Foram dias especiais aqueles. Aproveitei as quase duas horas que fiquei pela última vez naquele arroio para orar bastante também. Deus tem me guardado muito, permitiu que eu obtivesse experiência, é paciente com meus erros, e quantos erros! E, de quebra, ainda pude fazer um filme sobre meu lugar predileto de tomar banho.
Última foto antes de filmar o vídeo de despedida! Emocionante!
Às 17h30min decidi subir, olhando atentamente para cada árvore, ouvindo pela última vez o murmúrio do regato que serpenteava o vale à minha direita. Até a microflora do lugar foi apreciada, como se eu estivesse dando um último adeus àquelas paragens.
Quando desci para o riacho, deixei o carro arrumado, com todas as malas dentro. Assim, cheguei, coloquei minha roupa e preparei a máquina digital no encosto de cabeça do banco do carona para fazer algumas tomadas durante a viagem. Quanto à outra máquina, a Kodak, montei-a no tripé e fiz meu último filme, o de despedida.
Última foto da viagem, a de despedida, 18h00, dia 19/02/2012, saindo definitivamente da fazenda! Saudades!

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